6º WE TALK by WomenWinWin

6º WE TALK by WomenWinWin

CICLO Women Entrepreneur Talks by WomenWinWin

Partilhamos convosco este texto que resume este 6º WE TALK  que decorreu no dia 6 de dezembro no Auditório de Abreu Advogados. 

6º WE Talk: “É preciso persistir e andar em frente — para trás é o abismo”

Aos 31 anos, Juliana Oliveira é já um caso sério de sucesso num setor onde quase não existem mulheres — a metalomecânica — e num “negócio nada sexy” — o lixo.

Rita Gonzalez abriu a sua própria consultora depois de uma carreira feita na Banca, e percebeu que era muito mais realizada e feliz depois de fazer frente ao medo de empreender. 

 Uma jovem empreendedora do setor da metalomecânica e uma executiva da banca que se decidiu por um voo profissional a solo na consultoria financeira foram as protagonistas da 6ª sessão WE Talk. A última palestra deste ciclo dedicado ao empreendedorismo feminino arrancou com os agradecimentos que Maria José Amich estendeu à equipa e empresas que têm vindo a patrocinar o evento e a acreditar na causa do empreendedorismo feminino. “É com muita alegria que fechamos estes WE Talk com duas mulheres que empreendem em áreas que não têm muita presença feminina. Muitíssimo obrigada a todas porque convosco temos elevado o debate do empreendedorismo feminino, com grandes ideias.”

A economista “serralheira de coração”

Natural da Maia, Juliana Oliveira, 31 anos, diz-se “economista de formação, mas serralheira no coração.” Para ela não há eufemismos ou neologismos elegantes para falar da paixão por empreender numa área tradicionalmente masculina como a metalomecânica, que já era o ofício do avô, Joaquim. Foi na sua oficina que cresceu, brincou em criança e até aprendeu a andar de bicicleta e brincava. Licenciada em Economia pela Universidade Católica e com um mestrado em gestão pela mesma instituição, onde também chegou a dar aulas entre 2009 e 2010, trabalhou 3 anos em auditoria numa das “big 4” da consultoria, a KPMG. Ninguém diria hoje que, ainda nos tempos da faculdade, lhe “diagnosticaram como fraqueza uma grande aversão ao risco”, numa avaliação de aptidões. “É totalmente contraditório que, neste momento, esteja aqui a falar de criar empresas e ter 30 famílias para alimentar todos os meses.”

A empresa fundada pelo avô estava numa situação difícil e, com o pai doente, Juliana decidiu arregaçar as mangas. “Não me permitia, com 24 anos, ver a minha casa ir abaixo sem fazer nada.” Por isso, deixou o “salário confortável” que tinha na KPMG, onde aprendeu muito mas onde também percebeu que não se sentia realizada, e trabalhou durante os primeiros seis meses sem receber qualquer salário, a  ‘lamber papel’, como diz. A empresa familiar acabaria por abrir falência, mas apoiada pela experiência do ofício do avô, Juliana fundou a Olimec, em 2016. “Ele é a minha grande inspiração, é por isso que continuo o trabalho dele. Ainda tenho comigo funcionários que começaram a trabalhar com ele”.

A empresa tem sede no Porto e dedica-se à reparação e manutenção integral de camiões do lixo. “Não é um negócio sexy”, diz, mas em menos de três anos de vida já trabalham com 95% do setor de recolha e tratamento de resíduos, em Portugal e são a única empresa privada deste ramo com duas oficinas próprias, a norte a sul do país. A sua “muito invejada” carteira de clientes inclui empresas privadas que trabalham em gestão de resíduos e grande parte dos municípios do país, incluindo Lisboa e Porto. Com pouco mais de um ano de vida — e a pedido de clientes do sul do país — abriram uma delegação em Palmela e já dispõem de carrinhas de assistência técnica que se deslocam pelo país, vendendo também, camiões e peças para eles — Juliana chama-lhe “estratégia de integração vertical do negócio.”

Porquê lixo? “Porque lixo há sempre. Além disso, tem esta particularidade de corroer o melhor aço de todos, chegando a avariar camiões. Eles precisam de uma manutenção obrigatória e regular, que dá multas se não for feita.” 

Pragmática, Juliana Oliveira reconhece que o segredo do seu sucesso em dois ou três fatores chave. O primeiro que salienta é a sua equipa de colaboradores — e gerir pessoas é, simultaneamente um dos maiores desafios de gestão que se lhe deparam. “É o mais difícil. Contratamos mão de obra técnica muito rara, hoje em dia — serralheiros, mecânicos e eletricistas — mas altamente motivada. Tratamos estes profissionais com o mesmo respeito com que tratamos os nossos clientes, um engenheiro ou um administrador. As pessoas têm de estar connosco; sozinhos não fazemos nada.” Com a sua boa disposição a toda a prova, uma das receitas de Juliana para engajar a equipa num espírito de integração, vestindo a camisola da empresa, foi criar o Dia do Olimeco, com atividades de team building, convívio e muita animação. Outra delas foi criar o “Olimeco do mês”, que elege o colaborador que mais se destacou nesse período. “Valorizam e acreditam muito estas iniciativas. Tenho os melhores técnicos comigo.”

Outra das máximas que acredita ser determinante a criar este espírito de amor à camisola nos seus colaboradores é liderar pelo exemplo. “Sou a primeira pintar os contentores, a trepar para uma grua ou a pôr-me debaixo de um camião. Se for preciso varro a oficina, da mesma forma como tenho reuniões com administradores e responsáveis da Câmara. Não sou melhor que ninguém. Nasci neste ambiente, para mim isto é muito melhor do que o mundo das gravatas.”

A persistência é a arma de eleição de um empreendedor, diz. “Perguntam-me se nunca tive vontade de desistir. Então não tive!... Já cheguei a não ter dinheiro para pagar salários no dia a seguir. Mas disse para mim que não era aquilo que me ia deitar abaixo e que ia conseguir.” No dia seguinte estava no banco, com uma amiga de família a entrar como business angel para apoiar o seu negócio, quando já estava à beira do desespero. “Convenci-a porque ela me conhecia e sabia a força que eu teria naquele projeto. Mas não convenci o banco, que só me mandou metade do dinheiro que pedimos, quando eu já não precisava dele.” Aliás: baseada na sua experiência, hoje acredita que as organizações financeiras privadas não estão preparados para ajudar empreendedores que “não têm nada mais para dar além da sua força e capacidade de trabalho. Este é o grande desafio dos empreendedores: não temos as costas quentes.” Outro parceiro que ajudou a Olimec foi um empresário que lhes equipou a oficina e a quem só pagaram um ano depois. Disse-lhes que os iria ajudar porque também já tinha sido ajudado. Até os móveis do seu escritório, a secretária que ainda hoje usa, foram dados. “É muito importante saber fazer muito com pouco. E, como diz Paulo Coelho, saber cair sete vezes para levantar-se e cair a oitava. Às vezes perguntam-me se não tive medo. Tive... e então? Para trás era o penhasco; só tinha a opção de andar para a frente”

Os resultados dão-lhe razão: o investimento feito na Olimec Porto foi pago ao fim de ano de vida e o da delegação de Palmela ficou pago no ano em que foi criada. Juliana quer fazer o negócio escalar ainda mais em 2019, acabando de investir num departamento de peças. “Um conselho muito importante é manter sempre o foco no cliente, vender o que é vendável, conhecendo exatamente aquilo de que estamos a falar. Tenho 1500 folhas de serviço abertas só na nossa oficina do Porto. Não tenho riscos de cobranças porque trabalhamos com os maiores do país”, diz a determinada empresária, que afirma não gostar de sair de reuniões com potenciais clientes sem um pedido de orçamento. 

No final da sessão, Juliana Oliveira falou-nos ainda sobre a importância da partilha da sua experiência em eventos como a WE Talk. “Só temos duas hipóteses: vencer… ou vencer. Já houve gente que abriu empresas depois de uma conversa comigo! Sinto que tenho esse poder de lhes dar força. Quero criar um legado com os meus valores; se puderem servir para ajudar alguém, ótimo!”

Fazer frente ao medo para ser mais feliz

Foi apenas há ano e meio que Rita Gonzalez criou a sua consultora financeira a pensar em empresas cotadas em Bolsa, auxiliando-as no seu posicionamento estratégico no mercado de capitais. Com uma carreira construída na Banca, onde “adorou trabalhar e aprendeu quase tudo o que sabe”, decidiu criar a sua própria empresa e sair do banco onde trabalhava, quando este passou por um processo de reestruturação. Aproveitando a alteração de uma lei europeia que regula estes mercados, identificou a sua oportunidade de negócio, conquistando clientes com que já conheciam a qualidade do seu trabalho. “Não tenho muitos serviços; tenho poucos, mas focados. No início, as coisas correram espetacularmente bem, de uma forma que nem eu esperava, apesar de estar bastante entusiasmada. Pensei que, dali para a frente, o caminho seria fácil e em linha reta, que me bastaria trabalhar e entregar resultados. Mas percebi que não, nem sempre é assim”, partilha. “Ia para uma reunião, sentia que as coisas tinham corrido muito bem, mas depois não se concretizava. Aquela ideia de que os resultados vão caindo mensalmente, não existe quando empreendemos, pelo menos no princípio.

O primeiro obstáculo que identificou na sua atividade a solo foi justamente este confronto entre expectativa e realidade. “É preciso ter foco e determinação para que ambas venham a corresponder, pelo menos um pouco. É muito importante percebermos o tempo que as coisas demoram a acontecer, por isso é preciso ter paciência e ser resiliente.” Com uma clientela composta por clientes de grandes empresas, estruturas pesadas onde o processo de tomada de decisão é longo, essa foi uma lição que depressa teve de aprender. 

Mais tarde, durante a sessão de perguntas e resposta aberta ao público, acrescentaria: “O segredo é trabalhar sempre, dar o seu melhor sempre, quer estejamos mais ou menos motivadas. As marcas não aparecem com valor; têm de o construir. Antigamente, eu aparecia nas reuniões com os cliente já com o valor de uma marca por trás; hoje sou eu que tenho de a construir — a minha marca sou eu. Há que começar do zero, não há outra hipótese.” Mas o valor da sua marca pessoal já começa a dar frutos, garante. Não só pela procura de clientes nacionais, mas também com o interesse pelo seu trabalho em clientes de Espanha, Reino Unido ou até mesmo nos Estados Unidos.

Rita precisou também reajustar a parte operacional do seu trabalho. Tem uma parceria com a Pheonix, uma empresa estrangeira a operar neste setor, mas em Portugal está sozinha na sua atividade. “Hoje faço de tudo. Antes pedia à minha secretária para me organizar as viagens, quando estava no banco; hoje sou eu que faço isso. Antes tinha uma equipa com quem trabalhava. Hoje, se precisar de recursos, recorro à minha parceria ou então subcontrato. Antes tinha um local fixo de trabalho; hoje faço conference callsdo meu carro, se estiver na rua, entre reuniões.” Mãe de três crianças, a sua nova faceta empreendedora também lhe permite uma maior conciliação entre a família e o trabalho, diz. “Esta flexibilidade dá-me muita liberdade, mas a liberdade também dá medo.” 

Mas o medo não nos atinge apenas quando estamos a empreender, diz. Quando trabalhamos para grandes corporações, ele também lá está muitas vezes, ainda que sob outras formas. “O medo que eu sentia quando trabalhava no banco era castrador, por vezes Impedia-me de dizer certas coisas ou de tentar fazer diferentes, por não saber se iria conseguir ou ser validada por um superior hierárquico. Agora (e sem querer ser pretensiosa) o meu potencial é o mundo: acredito e posso fazer o que eu quiser.”

Também é importante partilharmos os nossos medos com alguém com quem se tenha uma relação de confiança, aconselha. “Eu partilho com o meu marido, que me tem apoiado desde o princípio.”

Rita Gonzalez acredita que há uma relação direta entre o sucesso e aquilo que gostamos de fazer. “É preciso olharmos para nós e percebermos o que nos dá felicidade. Aquilo que gostamos de fazer, normalmente, é algo que também sabemos fazer bem — com formação e trabalho a desenvolver, claro. Estas duas coisas juntas, gostar e saber fazer, normalmente dão bons resultados. Desta forma ficamos também muito atentas aos sinais e oportunidades de negócio que nos vão aparecendo. Hoje, quando dou o meu melhor, sinto uma felicidade enorme. Dou valor a coisas mais pequenas, tenho muito mais momentos de prazer do que antes, mais calma e mais energia, ao mesmo tempo. Afeta-me positivamente a mim e às pessoas à minha volta.” 

Para Rita, eventos como o WE Talk são “fundamentais”, pela importante partilha de experiências. “Eu também ouço outras histórias inspiradoras. Antes de abrir a minha empresa só via filmes sobre fundadores de grandes empresas, como o fundador da McDonalds ou o Steve Jobs. Também nos mostram os obstáculos que enfrentaram e como há um ganho de experiência em todos esses obstáculos. Há sempre uma parte boa a aprender, uma beleza colateral. Tento ver sempre onde posso evoluir. E para montar uma empresa temos precisamos de um espírito assim, um pouco mais otimista.”

Imagens de Nicole Sanchez.

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