4º WE TALK by WomenWinWin

Ciclo Women Entrepreneur Talks by WomenWinWin

4º WE TALK - Women Entrepreneur Talks - by WomenWinWin 

 

Ambição e perseverança, os ingredientes do sucesso

Cristina Fonseca co-fundou uma das poucas start-ups tecnológicas portuguesas a destacarem-se mundialmente e hoje dedica-se ao investimento. Helena Amaral Neto conhece a fundo o mercado do luxo e criou um projeto inovador de ecodesign. As empreendedoras partilharam as suas experiências na 4ª sessão dos WE Talks.

O ciclo de palestras de empreendedorismo feminino, WE Talks by WomenWinWin, trouxe ao auditório da Abreu Advogados, em Lisboa, mais dois casos de sucesso: Cristina Fonseca, co-fundadora da TalkDesk e partner da Indico Capital Venture, e Helena Amaral Neto, co-fundadora da Tela Bags e, mais recentemente, partner da Luxulting. A iniciativa, que conta com duas oradoras a cada sessão, continua a sua missão de promover a partilha de experiências de mulheres que se destacaram no panorama empresarial português, bem como o networking entre empreendedoras.

Da TalkDesk ao venture capital

Foi a pneumonia que a deixou à beira da morte e ligada a um ventilador que viria a revelar-se o momento decisivo e transformador na vida Cristina Fonseca. Estava no 1º ano do mestrado em Engenharia de Redes de Comunicações, no Instituto Superior Técnico. “Foi um abanão. Uma pessoa pensa: ’Se eu escapar desta, o que vou fazer da minha vida?” Quando terminou o mestrado, começou a recusar quase todos convites para entrevistas de recrutamento que as consultoras habitualmente fazem aos finalistas de engenharias. “Numa empresa com 8 mil pessoas, qual o impacto que eu poderia ter?”

Inspirada pela história do criador do Facebook, Mark Zuckerberg, convenceu-se de que também ela poderia ter sucesso a programar e, com o colega de curso, Tiago Paiva, dedicou-se a explorar as hipóteses de negócio na área das tecnologias.

Mas a Talk Desk, a empresa que ambos fundaram e que hoje conta com 3 escritórios (São Francisco, Lisboa e Porto) e mais de mil clientes em todo o mundo, valendo-lhes a menção na lista ‘30 Under 30 da Forbes’, não foi a primeira tentativa de negócio que fariam. Um ano antes, em 2010, vieram três ideias que não vingaram. “O que nos distingue é termos sido tão rápidos a ‘matar’ as ideias que não funcionavam e a pensar em ideias novas, e foi isso que nos permitiu andar rápido. Acho que as pessoas se comprometem demasiado cedo com uma ideia que, muitas vezes, não é mais do que só isso, porque não foi sequer testada. Mas como há um compromisso público de se estar a trabalhar naquele projeto com todas as forças, mais depressa se entra em negação do que se corrige a trajetória.”

O resto é a história da criação da Talk Desk: o concurso de empreendedorismo que ganharam, nos EUA, ao qual concorreram com o conceito de um call center mais eficaz e sedeado na cloud, onde todo o histórico dos clientes estivesse sempre à disposição, de forma democratizada e barata. No dia seguinte já tinham potenciais clientes; duas semanas depois foram convidados a apresentar a ideia em São Francisco e a integrar dois programas aceleradores de empresas. Eram a equipa mais pequena (apenas duas pessoas). A primeira ronda de investimento deu-lhes 450 mil dólares. “Crescemos muito devagar, acho que por aversão ao risco. Éramos muito bons tecnicamente, tínhamos clientes e pagávamos as contas, mas tínhamos medo de crescer desmesuradamente.” Para os ajudar na transição para uma fase mais madura, angariaram mais 3,15 milhões e, numa terceira fase, outros 21 milhões.

O sucesso não viria sem um preço para Cristina. “Em 2016, trabalhava dois turnos todos os dias. Não queria voltar para uma cama de hospital.” Por isso deixou a gestão da empresa — continua a ser accionista — e decidiu dedicar-se a perseguir outras paixões, como voltar a empreender. Com mais dois sócios criou um fundo de investimento, a Indico Capital Ventures. “Em Portugal há talento técnico, pessoas ambiciosas e com capacidade de ter e executar boas ideias, escaláveis no mercado global. Mas faltam-nos investidores profissionais, que acompanhem a start-up desde que nasce até conseguir competir na primeira liga do campeonato de empreendedorismo. É isso que estou a fazer agora e dá-me imenso gozo.”

O tema da discrepância no financiamento de start-ups femininas, relativamente às suas congéneres masculinas, mereceu ainda um comentário final de Cristina Fonseca, que não acredita que problema tenha unicamente a ver com a falta mulheres partners nas empresas de fundos de investimento. “O problema também tem a ver com o facto de as mulheres serem tão menos ambiciosas e tão mais realistas que os homens — e isso às vezes limita-as nas rondas de investimento. Enquanto elas, tipicamente, me falam sobre o que já existe no seu negócio, os homens conseguem-me vender a ideia do que ainda vai existir. Eles sonham mais alto. As grandes firmas de venture capital estão hoje a tentar encontrar partners femininas, num esforço de garantir que isto não acontece. Mas esta questão tem também a ver com o facto de existirem muito menos mulheres em tecnologia.”

 

Empreendedora S.U.P.E.R.

Em 1994, Helena Amaral Neto estava no 4ª ano da licenciatura em Economia da Universidade Católica — e pouco cativada, confessa —, quando decidiu que era tempo de conhecer outras realidades. Inscreveu-se no então recém-criado programa Erasmus e foi terminar a formação em Inglaterra. Foi essa experiência que acabou por lhe dar “a abertura de espírito e experiência internacional”, revela. Por lá frequentou a melhor universidade de desporto do país, onde jogou râguebi e foi capitã da equipa feminina de basquetebol; fez um mestrado em Finanças na City University de Londres e começou a carreira trabalhando no Chase Manhattan, na área de mercado de capitais. Eram 300 homens e 5 mulheres, das quais 3 eram secretárias. “É um ambiente altamente agressivo, mas que tem a enorme vantagem de criar muita resiliência.”

Dois anos e meio depois, regressou a Portugal para fazer parte da equipa que criou de raiz o Banco de Investimento Global, onde desenvolveu a área de Clientes Institucionais. Foi desses anos, que revela ter adorado, que lhe nasceu o gosto pelo empreendedorismo, “por criar projetos do zero e fazê-los ganhar velocidade de cruzeiro.”

Ela própria viria a ganhar esse ritmo: ao mesmo tempo que fazia o doutoramento em Gestão no ISEG, onde simultaneamente dava aulas – e onde ainda hoje é professora de Gestão Financeira e Gestão de Risco —, Helena criou a marca Tela Bags, projeto de ecodesign que nasceu da ideia de reaproveitar materiais de publicidade obsoletos, como outdoors, transformando-os em malas e outros acessórios, em vez de os despejar num aterro. A EDP foi a primeira empresa a acreditar no projeto e a fazer uma “gigantesca encomenda” de mochilas. Sem perceber nada de produção fabril e tecnologia, teve que aprender os segredos do ofício enquanto trabalhava. “Temos que nos rodear dos parceiros certos, que percebam do que nós não percebemos.”

Desde 2012, tem se dedicado ao estudo e consultoria do mercado do luxo em Portugal, através dos cursos executivos que coordena no ISEG e também da empresa Luxulting, que fundou em 2017.

Segundo Helena, as características que definem o espírito empreendedor poderiam resumir-se num acrónimo simples:

S de Sonho: Tudo começa com ele.A vontade de criar algo novo já tem de existir”.

U de Utopia: “É preciso acreditar no que estamos a fazer, que faz sentido e estamos a dar um contributo. Ainda hoje me emociona ver peças criadas pela minha equipa.”

P de Plano e de Pessoas: “Não é do plano de negócios que falo, mas de onde queremos chegar, definir o norte para o negócio. E tudo tem de ser adaptável aos diferentes ventos e marés. Quando criei o projeto de ecodesign ele estava focado no mercado corporate, mas vimos que havia muito interesse na área de retalho e então nasceu a marca Tela Bags. As mudanças de mercado são muito rápidas, hoje em dia, e a velocidade de adaptação é um fator importantíssimo.”

A escolha das pessoas certas para a equipa, que tragam consigo a partilha constante de novas ideias, é outro elemento essencial.

E de Energia: “É preciso saber gerir a nossa energia, e isto tem a ver não só com o lado profissional, mas com o tipo de vida que queremos para nós. Quando criei a marca, tinha filhos muito pequenos e houve em uma altura em que os acompanhei muito menos. Há um preço a pagar por esse excesso de entrega, que tem de ser levado em conta. Cheguei muito perto do burn out´.” Essa gestão tem de se fazer com visão estratégica e capacidade de implementação do projeto através da delegação e confiança nas equipas, acrescenta.

R de Resistência e de Risco: “Churchill dizia que o sucesso é ir de falha em falha sem perder o entusiasmo. Isso reflete a grande lição do empreendedorismo: falhar e aprender com esses erros.” Saber lidar com o risco também é outra constante na vida do empreendedor; não apenas o risco financeiro, mas também o risco da entrega pessoal e de assumir a responsabilidade pelas vidas das pessoas que contrata, diz.

“É preciso desmistificar o preconceito de que falhar equivale ao fim, que já está ultrapassado em países como os Estados Unidos ou Inglaterra, onde a noção do risco está muito mais desenvolvida”. A empreendedora destacou ainda a importância da associação WomenWinWin e do ciclo WE Talks. “Estes eventos são importantes para partilhar experiências, sobretudo aquilo que as oradoras aprenderam com os seus erros, para que se possa crescer em conjunto. É inspirador para quem está a lançar projetos e têm uma vertente de aprendizagem que, espero, possa ajudar outras empreendedoras.”

Escrito por Cristina Correia.

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